Fim de relacionamento é fogo.
O cara fala que vai ser melhor ficar solteiro, mas no fundo sabe que é pura auto-enganação.

Vejamos o caso de um amigo meu.
Cruzeirense velho de guerra terminou com a Rosa.
E foi pro bar. Sozinho, sofrendo, noite de sexta-feira.

Um gaiato se sobe num banquinho a troco de couvert, dois chopps e uma pizza requentada no fim da noite. 
Saca seu violão e começa a desfilar temas do cotidiano brasileiro. E tome lágrima no amigo torcedor celeste recém-solteiro. 

Foi traído, coitado. Trocado por um flamenguista bom de sela, cabelo pintado à platina. E no violão sai logo um MPB-4. ‘Amigo é pra essas coisas...’, dizia a letra. ‘Rosa acabou comigo, nem Deus sabe o motivo...’ A cada nota de lá, uma lágrima de cá.

E fim definitivo à velha máxima de ‘azar no amor, sorte no jogo’... Porque o Cruzeiro dele anda de mal a pior. Óbvio, chega um conhecido, bate no ombro dele e brada: E o seu Cruzeiro, hein?

A vontade que dá é de esganar. Matar o cara. Enfiar goela abaixo dele os quatro gols do Grêmio, o do Palmeiras, os do Flamengo, tudo junto com um Sassá e dois Deivides.

Mas não. Pacato, manso, só balança a cabeça, sorve outro trago de whisky sem gelo. A caixa acústica sob o som do violão agora toca Fagner. ‘Quando penso em você Fecho os olhos de saudaaaaaaaaa-de...’ Ele pensa na canção. Saudades da Rosa. Saudades de ir ao Mineirão ver o Cruzeiro de Marcelo.

Aquele zóio preto que fazia o time não ter dó nem piedade dos adversários. Saudades do que a gente ainda não viveu. Putz... isso daria uma bela cantada. Ou não. Veio a seca. Mas veio o Mano. Ele e Rosa seguiam felizes.

O Cruzeiro voltou a ganhar. Tudo parecia ser um terno azul, um lindo lago do amor, diriam. A voz rouca do cantor invade a madrugada relembrando Gonzaguinha. Logo agora que ele se atinha a bons e passados sonhos, o cara me vem de ‘Um homem também chora, menina morena... Não dá pra ser feliz!’

É. Tem dias que são noites. E noites que são de nunca mais.

O violão se cala. Alguém grita pela saideira. Ele anuncia então que vai de Djavan.
O povo aplaude, se anima. ‘Meu bem-querer, meu encanto Tô sofrendo tanto’. Não terá a última. Não terá a saideira. Ele paga e deixa o troco para trás. O garçom o alcança no meio-fio e lhe entrega seus Três reais e cinquenta centavos. Ele manda o garçom entregar o troco para o Itair. O dono do bar.

por Rogério Lúcio Twitter:
@rogeriolucio77

(Foto: Lucas Figueiredo/CBF)


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