Acordei triste e ousado hoje.

Resolvi reescrever um conto famoso de Joseph Jacobs (e de Benjamin Tabart).

Reescrever, não; apenas reinventar o final.

JOÃO E O PÉ DE FEIJÃO!

Vocês se lembram do final original? Quando cortam o pé de feijão...? O gigante cai e morre. Pois bem, vamos lá.

“... João desceu o pé de feijão com a galinha, o ouro e a harpa.
O Gigante, porém, não conseguiu correr atrás de João.
Desistiu pois achava que estava tudo bem.
Já havia acumulado riquezas demais para se importar com o pouco que lhe acabaram de roubar.
Voltou para casa, tirou um cochilo e quando acordou, parou para pensar em sua vida e no fato acontecido.

Um garoto ousado escalou um pé de feijão gigante, entrou em seu castelo, roubou um pouco de suas riquezas e vazou!
Mas ele já era rico demais e estava farto de só conquistar, só acumular.
Ganhara troféus por quase todos os anos desde sua vida quase centenária.
Ouro, riquezas, dinheiro...
Era invejado porque não precisava morar no grande centro para ser um gigante respeitado.
E isso o envaideceu.

Trocou de companhias.
Quem sempre andara a seu lado nas maiores vitórias mas também nos tropeços de aprendizagem agora era desprezado.
Colocou ao seu lado amigos ricos, com cabeça de gente rica, para ‘melhorar a média de quem estava consigo’.
Esses amigos ricos eram tipo políticos de alguns países por aí.
- Ele rouba mas faz – diziam os neo-companheiros.

O turbilhão de maus acontecimentos, porém, estava por vir.
Os novos amigos estavam assaltando o gigante sob seu nariz; pior, com sua conivência.
Ele é quem assinava os cheques para seus amigos fazerem o que bem entendessem.
Pensava ele que tanta fortuna jamais se acabaria. E que era boa a vida de farra.
Chega de só labutar. Vamos tomar uma cachaça aqui com os novos amigos.
Vamos nos inebriar de pão e circo.
Nenhum mal há de nos atingir.
Temos dinheiro, ouro, troféus, riqueza.
Temos na turma o Presida Raiz, o Cara-Que-Fudeu-Outro-Time, o Besta da Alterosa, o Ex-torcedor que faliu o Sócio-Torcedor...
E para fazer nossa alegria?
Basta contratar a Turma da Panela.

Sim, aquela que acha que pode fazer graça sempre.
Fazer rir sempre.
Fazer conquistar sempre.

E assim foi indo.
Um mês aqui, um caneco acolá.
Uma dividazinha aqui ‘mas a gente enrola e dá tudo certo’...

E eis que um dia faltou dinheiro.
O Gigante se assustou, mas presunçoso, não deu o braço a torcer.
Vendeu um de seus fantoches, pagou o resto da turma e fim.
Faltou grana de novo.
Vendeu de novo. E de novo.
A Turma da Panela enfraqueceu mas já era ruidosa demais para perder o poder.

Aí alguém denunciou: ‘Há muito mais podridão no Reino do Gigante que vocês imaginam’.
Postou e correu.

A imprensa local quis saber, futucou, investigou.
A farra com o dinheiro do Gigante havia extrapolado qualquer mínima noção de bom senso.
Ele, antes o primo rico, agora estava devendo até à tia do cafezinho.
Dívidas com seus fornecedores de cachaça, de água, de luz, de internet.
Dívidas com seus funcionários.
E com seus animadores.

Esses, porém, ficaram rebeldezinhos e pararam de trabalhar.
Pior. Bolaram um plano para derrubar o Gigante.
Um plano maquiavélico, assustador.

Foram pouco a pouco embriagando o Gigante com a balela de que ‘você é grande demais...você nunca cai’.
E dando cachaça a ele.
E repetindo o mantra.
E mais cachaça, e mais mantra...

E assim foram o levando para fora de casa, um lindo castelo com a letra 'A' maiúscula e dourada na porta.
Levaram-no para a beira de um buraco grande, desconhecido, chamado Série B.

Não foram todos os animadores da galera que fizeram isso.
Uma pena, porém, que os que não o fizeram também se calaram; foram, infelizmente ao Gigante, covardes.
Um quis dar o grito e foi logo colocado de lado, escarniado, zombado.
O chefe da turma da Panela então zombou ainda mais.
Sob a chancela de seu amigo e comandante, teve a chance de salvar o Gigante mas não o fez.
Não quis fazer.
Empurrou o Gigante para a beira do precipício e depois foi para a festa; talvez para comemorar seu feito.
Fizeram, ele e a turma da Panela, algo que seus maiores inimigos jamais haviam conseguido.

Agora faltava pouco.
Um vento.
O balançar das palmeiras.
E o Gigante tombou!
Caiu feio!
Sem chance de apelação.

Alguém ficou triste nessa história?
Sim.
Quase 9 milhões acompanhavam de perto a agonia do Gigante; muitos gritaram com ele, tentaram o acordar.
Tentaram o tirar do estado sorumbático, letárgico, para abrir os olhos.

Depor seus novos amigos.
Tirar dali o quanto antes quem lhe fazia mal.
Afastar de perto deles todos aqueles caras da turma da Panela.
Mas não deu.

O Gigante não morreu.
Está machucado, ferido demais, sangrando; e ainda embriagado.

Sem dinheiro, vai ter que rastejar humildemente até que suas feridas se curem.
Aprender que não se brinca com o próprio patrimônio, e não se entristece impunemente o coração de quase 9 milhões de fãs.

FIM.

Ou não.
Assim espero.


por Rogério Lúcio
Twitter: @rogeriolucio77
(Foto: Site EuAmoIpatinga)


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