Difícil definir o que é a perfeição, até mesmo porque não tenho nem de longe essa pretensão. Não digo que é impossível, porque isso definitivamente não existe no dicionário do atleticano. Mas se alguém me perguntar sobre o último domingo, não hesitarei em responder de bate-pronto: foi perfeito! Como tinha de ser.

Mesmo com o gol de Guerrero? Sim! E a virada nos acréscimos, com Cuesta? Nem vi (não que eu estivesse de costas, como aquele que personifica toda a arrogância costumeira daquela gente “duladilá” da lagoa), por motivos óbvios. E etílicos. Caiu. Como era preciso cair um dia.

Rebolou até a boquinha da garrafa, suspirou até o último dia, mas foi. Dia D? Não! Dia B, de faz-me rir. Afinal de contas, foram anos de espera. E valeu a pena demais. Caiu com Perrella falando besteira, com Fred fazendo justiça ao apelido ‘cone’, com Thiago Neves passando de herói a vilão em segundos, com uma dívida impagável que contradiz à empáfia que corre no sangue.

Azul, como céu de brigadeiro, mostrando que o Crüzeiro, de fato, foi pro espaço. Caiu dando calote pra todo lado - nos ucranianos, nos mexicanos, em time do sertão, na Minas Arena e até no Galo. Aliás, esses R$ 10 milhões serão gastos em bebidas e foguetes! Para nossa alegria!

E preciso te contar uma coisa: caiu como time pequeno. Sim, meu amigo. Time grande cai. Mas cai em pé e volta com a crista alta – não por arrogância, mas por se sentir amado. Time grande vai nos braços de sua gente, que canta o hino. E volta carregado por essa mesma gente, que faz loucuras para vê-lo em qualquer circunstância.

Gente que sem alguma vaidade canta o orgulho de ser alvinegro e desafia o impossível, se preciso for. Gente que morreria só para ver o Galo se ele jogasse no céu. Time grande quebra recorde de público independente da divisão em que seu time esteja. E foi assim em 2006. Nosso salão de festas ficou pequeno para acolher o amor e a fé (a nossa não vai embora aos 40 do segundo tempo) do povo que só tinha um objetivo naquele momento: devolver o Galo ao seu lugar de direito. Com Beth Carvalho e Sideral, festejamos. Com orgulho no peito e amor no coração, acreditamos e fomos até o fim com o mantra ‘vamos subir Galôoooooo’, que nos tirou a voz, mas jamais a honra de vestir o preto e o branco que circula nas veias e escorre pelos olhos quando o momento é de dor.

E é exatamente isso o que nos diferencia. Graças a Deus!

No dia queda, não depredamos o estádio de forma histérica, não quebramos espelho de banheiro nem televisão de bar, não vimos a Galoucura brigar com a Esquadrão. Sofremos, calados por uns minutos e esgoelando o hino logo em seguida, na certeza de que a nossa força seria capaz de reerguer o clube que tanto amamos.

Quebrar estádio, espernear, arranhar o simpatizante ao lado, puxar os cabelos de quem está à sua frente é sinal de desespero. E este não tem vez quando o assunto é Atlético. Aqui, é no suor, na lágrima, na vontade e na persistência. O pequeno se acovarda diante das dificuldades. O grande desafia o improvável, ri do impossível e se agarra ao amor.

Mesmo com todas as taças (algumas conquistadas da forma mais brasileira possível - na caneta – e outras acompanhadas de asteriscos) e coleções de souvenirs, o tal gigante que um dia sonhou em ser la bestia, enfim, adormeceu, pequeno como um bebê que não sabe o que quer da vida. E já vai tarde.

Que seja pra afundar de vez em meio às falcatruas de seus condutores e despencar ainda mais, com ou sem boquinha da garrafa. Coadjuvante no caderno de esportes e protagonista nas páginas policiais dos jornais. Do jeito que sempre sonhamos. Do jeito que merecem.

Que volte a ser o América o nosso rival dentro do terreiro, onde sempre cantamos, literalmente, de Galo. Que o centenário de vocês seja escrito com a letra C em caixa alta, se é que me entende. Que o A seja apenas da arrogância que carregam no peito ao lado da vaidade e o B simbolize a beleza e a bebedeira que proporcionaram a milhares de atleticanos no domingo.

Difícil vai ser quebrar o protocolo e cair no golo às terças-feiras. Mas daremos um jeito. Certamente haverá aquele que levantará a mão para dizer que é feio festejar a desgraça alheia. Pra você, meu amigo, só tenho a dizer que o Galo é o suficiente para fazer a sua gente feliz. Basta ele existir. Sempre foi assim e sempre será. Comemoramos sim cada vitória, cada aniversário, cada gol como se fosse um título, embora o cruzeirense não entenda. Mas nem queremos que entendam.

Entre amor e simpatia, a diferença é gigante.

Do tamanho do sorriso que estampo no rosto de umas semanas pra cá. Afinal, já que temos um cliente cinco estrelas, não tem porque não gargalhar com suas trapalhadas. E é bom rirmos logo, antes que resolvam mudar mais uma vez o nome, o escudo, as cores – essas coisas que os pequenos fazem quando a maré não está pra peixe. Ou seria pra raposa? Tanto faz, né? Até a mascote é capaz de mudar ano que vem.

Haverá também, evidentemente, uma grande parcela dos simpatizantes, daqui alguns anos, dizendo que não houve rebaixamento algum em 2019. Negar a própria história é o que essa turma faz de melhor. Não há 9 x 2, não há cocaína em helicóptero algum. Campeonato Mineiro só há quando convém, não é mesmo?

Se conselho fosse bom não seria de graça, mas fica a dica para a turma que ainda continuará vestindo azul (sei que poucos farão isso por um longo tempo): pare de comer mortadela e arrotar caviar.

Aliás, você sabe o que é caviar? Nunca viu, nem comeu. Só ouviu falar. Portanto, chora crüzeirense, crüzeirense chora, pega essa bandeira e todas as taças (já sabe, né?) ..... e vá embora!


Por Sergio Monteiro


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